{"id":9217,"date":"2026-02-08T22:21:02","date_gmt":"2026-02-09T01:21:02","guid":{"rendered":"https:\/\/www.mercosulnewsagora.com.br\/v2\/?p=9217"},"modified":"2026-02-08T22:21:02","modified_gmt":"2026-02-09T01:21:02","slug":"politica-externa-de-trump-abala-ordem-global-e-aprofunda-disputa-entre-potencias","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.mercosulnewsagora.com.br\/v2\/politica-externa-de-trump-abala-ordem-global-e-aprofunda-disputa-entre-potencias\/","title":{"rendered":"Pol\u00edtica externa de Trump abala ordem global e aprofunda disputa entre pot\u00eancias"},"content":{"rendered":"<h3 class=\"wp-block-heading\">Amea\u00e7as \u00e0 Groenl\u00e2ndia e ao Canad\u00e1, por exemplo, marcam a destrui\u00e7\u00e3o de arranjo que vigorava desde o p\u00f3s-Segunda Guerra.<\/h3>\n<p>O uso n\u00e3o convencional de meios econ\u00f4micos e militares na\u00a0<strong>pol\u00edtica externa americana<\/strong>\u00a0para enriquecer corpora\u00e7\u00f5es, elevar subs\u00eddios estatais e fortalecer a seguran\u00e7a nacional tem causado uma\u00a0<strong>eros\u00e3o na ordem internacional<\/strong>. Para a comunidade diplom\u00e1tica, as amea\u00e7as do presidente Donald Trump \u00e0 Groenl\u00e2ndia, ao Canad\u00e1 e \u00e0 Venezuela, por exemplo, marcam a destrui\u00e7\u00e3o do arranjo que vigorava desde o p\u00f3s-Segunda Guerra Mundial.<\/p>\n<p>O per\u00edodo era baseado, sobretudo, em institui\u00e7\u00f5es, diplomacia e confian\u00e7a m\u00fatua. O governo Trump tem sido marcado por cr\u00edticas \u00e0 ONU (Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas) e a outras institui\u00e7\u00f5es internacionais.<\/p>\n<p>Apesar das queixas, existe um comprometimento com a relev\u00e2ncia da organiza\u00e7\u00e3o no enfrentamento de crises globais \u2014 estas causadas, principalmente, pelo enfraquecimento do multilateralismo, por quest\u00f5es or\u00e7ament\u00e1rias e impasses pol\u00edticos e ideol\u00f3gicos.<\/p>\n<p><strong><em>Ordem global<\/em><\/strong><em>\u00a0\u00e9 o conjunto de regras, rela\u00e7\u00f5es de poder, institui\u00e7\u00f5es e acordos que organizam o funcionamento do mundo entre os pa\u00edses.<\/em><\/p>\n<p>Para Jo\u00e3o Alfredo Lopes Nyegray, coordenador do Observat\u00f3rio de Neg\u00f3cios Internacionais da PUC-PR, a \u201cnova ordem\u201d n\u00e3o \u00e9 apenas uma mudan\u00e7a na pol\u00edtica externa, mas no \u201cprinc\u00edpio organizador\u201d. Ou seja, os EUA deixam para tr\u00e1s uma ordem em que buscavam liderar por regras para adotar uma pr\u00e1tica em que poder, acesso e coer\u00e7\u00e3o se tornam a linguagem normal do sistema.<\/p>\n<p>Como exemplo, podem-se citar as amea\u00e7as do uso militar por Trump na Groenl\u00e2ndia, um territ\u00f3rio semiaut\u00f4nomo da Dinamarca. Segundo o presidente americano, a ilha \u00e9 essencial para a constru\u00e7\u00e3o de um sistema de defesa contra a R\u00fassia e a China.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 por isso que textos recentes falam em \u2018<em>new old world order<\/em>\u2019: a ideia de que a administra\u00e7\u00e3o estaria tentando recuperar algo mais parecido com o mundo pr\u00e9-1914, de competi\u00e7\u00e3o entre pot\u00eancias e hierarquias expl\u00edcitas, em vez do p\u00f3s-1945, de institucionaliza\u00e7\u00e3o (imperfeita) da conten\u00e7\u00e3o\u201d, anaisa Nyegray.<\/p>\n<p><strong>\u2018V\u00e1cuo de regras\u2019<\/strong><\/p>\n<p>O especialista em rela\u00e7\u00f5es internacionais Guilherme Frizzera entende que Trump n\u00e3o est\u00e1 propriamente construindo uma ordem alternativa, mas suas a\u00e7\u00f5es aceleraram o colapso da estrutura que conhec\u00edamos.<\/p>\n<p>\u201cEssa ordem j\u00e1 vinha enfraquecida, e a pol\u00edtica externa de Trump acelera esse colapso sem apresentar um projeto consistente para substitu\u00ed-la. O resultado \u00e9 um\u00a0<strong>per\u00edodo de transi\u00e7\u00e3o, marcado por um v\u00e1cuo de regras, no qual a diplomacia perde espa\u00e7o<\/strong>, e a for\u00e7a, a coer\u00e7\u00e3o e a barganha de poder voltam a ocupar o centro das rela\u00e7\u00f5es internacionais, mais do que compromissos est\u00e1veis ou normas compartilhadas\u201d, pontua.<\/p>\n<p><strong>Esferas de influ\u00eancia<\/strong><\/p>\n<p>Para os especialistas, a l\u00f3gica de Trump \u00e9 que a Am\u00e9rica Latina, o Caribe e os espa\u00e7os estrat\u00e9gicos no Atl\u00e2ntico Norte e no \u00c1rtico, como a Groenl\u00e2ndia, devem ser tratados como regi\u00f5es \u00e0s quais Washington tem direito.<\/p>\n<p>\u201cAo mesmo tempo, Trump parece enxergar um mundo dividido em grandes blocos de poder, no qual a negocia\u00e7\u00e3o ocorre entre l\u00edderes fortes: os EUA no seu entorno hemisf\u00e9rico, a R\u00fassia com predomin\u00e2ncia sobre o espa\u00e7o euroasi\u00e1tico p\u00f3s-sovi\u00e9tico e sua zona de press\u00e3o sobre a Europa Oriental, e a China exercendo centralidade no Leste Asi\u00e1tico e no Indo-Pac\u00edfico. A diplomacia, nesse modelo, n\u00e3o desaparece, mas passa a operar dentro dessas esferas, quase sempre sob condi\u00e7\u00f5es favor\u00e1veis \u00e0 pot\u00eancia dominante em cada regi\u00e3o\u201d, explica Frizzera.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Alfredo Nyegray acrescenta que pa\u00edses mais dependentes dos americanos tendem a sofrer maior press\u00e3o, enquanto territ\u00f3rios com posi\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica e recursos cr\u00edticos tornam-se alvos de maior cobi\u00e7a.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 por isso que Canad\u00e1 e Panam\u00e1 aparecem recorrentemente no debate p\u00fablico como casos-teste do que significa \u2018zona de influ\u00eancia\u2019 na pr\u00e1tica. E porque aliados europeus, pela primeira vez em d\u00e9cadas, parecem discutir integridade territorial e coer\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica como risco real dentro do pr\u00f3prio bloco ocidental\u201d, analisa.<\/p>\n<p><strong>\u2018Conviv\u00eancia tensa\u2019<\/strong><\/p>\n<p>Al\u00e9m dos EUA, as outras duas maiores potencias mundiais (China e R\u00fassia) buscam revisar a ordem internacional p\u00f3s-Segundo Guerra, mas n\u00e3o necessariamente sob os mesmos termos de Trump.<\/p>\n<p>Segundo Guilherme Frizzera, a R\u00fassia atua de forma mais direta e voltada \u00e0 seguran\u00e7a, buscando garantir controle e reconhecimento sobre seu entorno estrat\u00e9gico imediato, enquanto a China aposta em uma estrat\u00e9gia mais gradual, combinando poder econ\u00f4mico, tecnol\u00f3gico e institucional para ampliar sua influ\u00eancia.<\/p>\n<p>\u201cAmbas podem confrontar os Estados Unidos em pontos espec\u00edficos, mas tendem a evitar um choque frontal permanente. O cen\u00e1rio mais prov\u00e1vel \u00e9 uma conviv\u00eancia tensa, marcada por disputas localizadas, negocia\u00e7\u00f5es pontuais e tentativas de redefinir limites de influ\u00eancia em um sistema cada vez mais fragmentado e baseado em for\u00e7a\u201d, observa.<\/p>\n<p><strong>Nova ordem global<\/strong><\/p>\n<p>Recentemente, o \u00faltimo tratado de desarmamento nuclear entre EUA e R\u00fassia venceu, abrindo brecha para que os pa\u00edses aumentem seus arsenais. No contexto da \u201cnova ordem global\u201d, o fim do acordo remove um dos \u00faltimos travamentos institucionais que ainda produziam previsibilidade estrat\u00e9gica entre as duas maiores pot\u00eancias nucleares.<\/p>\n<p>Com a expira\u00e7\u00e3o do tratado, organiza\u00e7\u00f5es internacionais alertaram para um \u201cgrave momento\u201d, o que aumenta a incerteza, reduz a transpar\u00eancia e tende a reabrir incentivos para a corrida armamentista e para barganhas de seguran\u00e7a.<\/p>\n<p>Segundo Nyegray, o caso est\u00e1 diretamente ligado ao debate sobre \u201cnova ordem\u201d. \u201cQuando o componente nuclear perde constrangimentos verific\u00e1veis, o mundo fica mais sens\u00edvel a blefes, a erros de c\u00e1lculo e a coer\u00e7\u00e3o \u2014 exatamente o tipo de ambiente em que uma pol\u00edtica externa mais transacional e mais \u2018de for\u00e7a\u2019 encontra menos freios\u201d.<\/p>\n<p>O especialista aponta que o resultado desse impasse estrutural \u2014 formado pela tend\u00eancia de rejei\u00e7\u00e3o chinesa e pela n\u00e3o renova\u00e7\u00e3o entre russos e americanos \u2014 \u00e9 o aumento da desconfian\u00e7a sist\u00eamica. Toda a movimenta\u00e7\u00e3o pode afetar n\u00e3o s\u00f3 o com\u00e9rcio, mas as alian\u00e7as, e desencadear crises regionais.<\/p>\n<p>Fonte: R7<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Amea\u00e7as \u00e0 Groenl\u00e2ndia e ao Canad\u00e1, por exemplo, marcam a destrui\u00e7\u00e3o de arranjo que vigorava desde o p\u00f3s-Segunda Guerra. O uso n\u00e3o convencional de meios econ\u00f4micos e militares na\u00a0pol\u00edtica externa americana\u00a0para enriquecer corpora\u00e7\u00f5es, elevar subs\u00eddios estatais e fortalecer a seguran\u00e7a nacional tem causado uma\u00a0eros\u00e3o na ordem internacional. 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